sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Pastor Aumenta-Rola

Tirar o capeta, acabar com insônia, depressão, dores de cabeça, dívidas, desemprego, vícios e olho grande, desamarrar os caminhos e desfazer bruxarias, trazer de volta a pessoa a amada, restabelecer a paz no lar, salvar casamentos destruídos, resgatar FGTS, batizar filho de mãe solteira etc, todas as igrejas evangélicas prometem fazer. 
É o currículo mínimo do pastor. A cesta básica de Cristo.
Portanto, o pastor que quiser aumentar seu rebanho e, principalmente, a sua fatia do bolo nesse mercado tão vasto, variado e competitivo, tem que inovar no marketing e na logística, tem que oferecer um diferencial, um algo a mais para fidelizar o fiel.
O que um homem pode desejar mais do que ser desencapetado, do que ter as dívidas saldadas, do que conseguir um bom emprego, do que ter uma boa saúde e um casamento feliz?
Puta pergunta fácil : uma rola maior!
Se fosse possível, o cara barganharia fácil, fácil, todas as graças supracitadas por um pau gigante.
Pois é justamente isso o que o pastor ganês Daniel Obinim promete aos seus fiéis, dar um upgrade em suas bengas caso se convertam ao seu culto. Adeus ervas milagrosas, adeus mandingas e simpatias, pílulas mágicas, exercícios indianos e bombas de sucção. Chega de ficar abrindo pop-ups que perguntam : quer aumentar seu pênis?
Deixe seu "pequeno" problema nas mãos de Deus. Ou melhor, nas mãos de Daniel Obinim.
O pastor garante ter o dom sobrenatural de aumentar as pirocas dos fiéis. O milagre é operado durante os cultos, quando o pastor passa de fiel em fiel e vai massageando cada piroca , chegando mesmo, nos casos mais graves e necessitados de maiores atenções, a chacoalhar os membros.
Um vídeo que circula pela net mostra os pastor apalpando os cacetes dos fiéis, que, diante da bronha ungida, apenas erguem as mãos e oram. Corrijo : alguns erguem algo além das mãos.
Para disfarçar, para não levar fama de viado, o pastor diz que seus poderes são eficientes também no aumento de peitos e bundas : "Se você não gosta de alguma parte do seu corpo, venha até mim", diz o Obinim. "O que vocês querem que eu ofereça? Se quiserem bumbuns maiores, posso fazer isso por vocês. Se vocês quiserem seios maiores, eu posso ajudar"
Contudo, o vídeo só mostra o pastor enchendo a mão nas pirocas, não há única cena dele apertando uma bunda feminina ou buzinando uns peitões.
Nem precisa dizer que a igreja do pastor, a International God's Way Church, está bombando, está com a lotação esgotada. E olha que é em Gana, na África, continente em que, reza a lenda, os homens já nascem abençoados por deus nesse quesito. O cara vai lá pra quê? Pra aumentar a rola de 30 para 50 cm?
Imagina só se esse pastor abrir, então, um templo no Japão? Fica bilionário, o filho da puta!!! 
Veja só a pinta (eu disse pinta) do pastor. Tá mais para pastorinha!!! Como diria o porteiro Severino, personagem do impagável Paulo Silvino : mas isso é uma bichona!!!!
Já vi Deus e a religião serem usados para enriquecer, para justificar guerras, assassinatos e perseguições, para candidatura a cargos eletivos e outras mumunhas mais. Mas é a primeira vez que vejo o nome de Deus ser usado para pegar numa rola, para encher a mão! Esse pastor vai fazer escola! Pãããããããta que o pariu se vai!!!

Para assistir ao vídeo do pastor aumenta-rola, é só dar uma massageada aqui, no meu poderoso MARRETÃO

Escorbuto

Cadê teu chegar, teu sorriso : 
Meu salvo-conduto ? 
Ficou teu partir, teu largar, 
Meu domingo de luto.

Cadê teu cheiro, meu roteiro: 
Do viver, meu estatuto ? 
Ficou teu lembrar, teu lugar, 
Meu uivo que mal já escuto.

Por andam a minha vontade, 
Vaidade, maldade, 
Esperança, querer de vingança, o equilibrar no fio da gilete, 
Enfim, essas cordas que fazem mover a marionete?

Foste a tesoura, a desgrenhada cimitarra loura, 
O estilete, o deboche, 
A decepar, desfibrar meus fios, 
A deixar-me inerte fantoche.

Cadê teu falar, teus fonemas : 
Harmonia do meu ritmo dissoluto ? 
Ficou teu deixar, teu desvanecer : 
Meu purgatório absoluto.

Cadê teu arfar, teu devanear : 
Meu gozo devoluto? 
Ficou teu fugir, meu fenecer, 
Meu coração em escorbuto .

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PISA 2015 Reconfirma : Somos um País de Merdas

Mais uma vez, O Brasil ocupa as últimas posições no ranking do PISA, sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. As posições exatas do país do futebol nas três áreas de conhecimento avaliadas - Ciências, Leitura e Matemática -, entre setenta países de todos os continentes, revelarei mais ao final, para fechar com chave de bosta mais essa conquista nacional.
Trienalmente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) coordena a avaliação entre países membros e parceiros e traça um perfil básico de conhecimentos e habilidades do estudantes de cada um deles.
Comparando os resultados obtidos pelo Brasil em 2012 com os divulgados hoje, relativos à prova do ano passado, 2015, despencamos algumas posições; não só em relação aos outros países, mas também em relação ao nosso rendimento anterior, ou seja, quando o assunto é Educação, perdemos até para nós mesmos.
E não pensem que as questões propostas pelo PISA sejam de altíssimo nível, complexas, intrincadas, insondáveis. Nada disso. O PISA não é concurso para cientista da Nasa. Cobra tão-somente os rudimentos de cada área. Em Matemática, por exemplo, a maior parte dos brasileiros errou problemas de aritmética básica, como o quanto de troco teriam que receber de uma compra.
A primeiríssima colocada nas três áreas foi Cingapura. As cinco primeiras posições de cada área, com exceção do Canadá e da Finlândia aparecendo entre elas no quesito Leitura, ficaram nas mãos de países asiáticos. Em Matemática, então, os olhinhos puxados são onipresentes.
Nos três ou quatro artigos que li sobre, os nossos "especialistas" em educação foram unânimes sobre a questão, para eles a principal causa de nosso fracasso acadêmico é a falta de investimento. Falta de investimento na estrutura e materiais das escolas e, sobretudo, investimento na formação e no plano de carreira do professor. Alguns ainda argumentam que o método utilizado nas escolas é o grande culpado, pois seria norteado pelo "conteúdismo". Esse último, eu nem discuto, afinal, se não for para ministrar conteúdos, de que serve a escola?
Quanto ao argumento da falta de investimentos, concordo que escolas com melhores instalações, salas com menos alunos, livros didáticos atualizados, acesso a laboratórios etc promovam um melhor aprendizado. Concordo ainda mais que salários mais justos atraiam os melhores da categoria, aumentando o nível do corpo docente bem como dos cursos de formação. Concordo com tudo isso. Se não estivéssemos falando do Brasil, do brasileiro.
No Brasil, o buraco é mais embaixo. É mais fundo. Se os governos dos estados e o federal dobrassem hoje o investimento na Educação, nada mudaria. Se triplicassem, decuplicassem, continuaríamos a cair posições e mais posições no cenário internacional
A principal razão de nosso acachapante fracasso educacional não passa pelo financeiro, o maior entrave é que o brasileiro não gosta de estudar! Você pode melhorar o ambiente escolar para ele, pode fornecer bons livros, bons professores : ele simplesmente se recusa a estudar. Digo isso do alto de vinte e dois anos de magistério, vinte e dois anos de ladeira abaixo.
O brasileiro não dá o mínimo valor ao conhecimento, à cultura; antes pelo contrário, gaba-se de sua ignorância, celebra sua burrice, gosta de falar e de escrever errado. Dado o interesse nacional pelo conhecimento, digo que os governos gastam até demais com as escolas.
À pouca ou nenhuma afeição do brasileiro pelas letras, junte-se ainda uma LDB (leis de diretrizes e bases) e um ECA (estatuto da criança e do adolescente) frouxos, permissivos e cheios de brechas legais para o vagabundo e está pronta a sopa de bosta.
O brasileiro não gosta de estudar e não há, atualmente, lei que o obrigue, como havia antigamente. Ou será que alguém pensa que o japonesinho já nasce educado e morrendo de vontade de estudar? Só que lá, não é dado a ele o direito de não estudar. Ninguém pergunta se ele quer estudar, ele tem quê, e pronto. Aqui, as leis que regulamentam o ensino desestimulam o bom aluno, privilegiam e premiam o vagabundo.
Para os que não são da área, cito agora umas poucas peculiaridades da legislação que rege nosso ensino:

- até a 7ª série do fundamental (atual 8º ano) é proibido por lei reprovar o aluno de série. Desde que ele tenha a frequência mínima, pode ter baixo rendimento em todas as disciplinas : irá ser promovido para a série seguinte. É a chamada Progressão Continuada. Ou seja, é dado o direito ao aluno, caso ele queira, de permanecer analfabeto até os seus 13, 14 anos de idade. E, frequentemente, ele o quer, comumente, ele exerce alegremente tal direito;
- quanto à frequência, ele tem o direito de faltar a 25% das aulas, ou seja, a cada quatro dias letivos, ele pode encanar um, dos quatro bimestres que compõem o ano letivo, ele pode se ausentar de um deles. Se, por acaso, ele conseguir exceder o permissivo limite, também não há enrosco : basta que ele procure a coordenação da escola e receberá uma lista mequetrefe de trabalhinhos para compensação de ausência. O cara copia lá meia dúzia de folhas e o seu excesso de faltas é retirado;
- Não é necessário um motivo sério e justo para que o aluno justifique suas faltas e tenha o direito de repor as atividades perdidas em sua ausência. Se, por exemplo, o aluno faltar num dia de prova e, no dia seguinte, o pai for à escola e disser que o filho faltou porque foram passear no shopping center, é o que basta, o professor é obrigado a dar uma prova substitutiva (não, não estou brincando);
- Não há mais horário de entrada. Não importa a hora em que ele chegue à escola. Desde que esteja acompanhado pelo responsável, mesmo que o motivo alegado seja o mais esfarrapado possível, ele tem o direito de ir para a sala de aula; ele pode chegar na segunda aula, na terceira, na quarta... E contra o pobre do diretor que se meter a barrar sua entrada cabe até um processo administrativo com risco de exoneração;
- Não existe mais obrigatoriedade do uniforme. O diretor pode até pegar no pé, pode tentar vencer o aluno pelo cansaço, mas proibir a entrada dele por conta do uniforme, não;
- A média para a aprovação é 5,0, o que corresponderia a uma pontuação mínima de vinte pontos em cada disciplina ao fim do quarto bimestre. Corresponderia... Não corresponde mais. Acabaram com a média. Mudaram a matemática básica e fundamental. Hoje, se o aluno tirar, por exemplo, zero no primeiro bimestre,  dois no segundo, três no terceiro e conseguir um cinquinho raso no quarto e último, ele será aprovado. Zero mais dois mais três mais cinco, tudo dividido por quatro, nas minhas contas, dá 2,5. Reprovação inconteste, certo? Errado. Apesar de não ter atingido os vinte pontos, o aluno mostrou um progresso em seu desempenho, está num crescente de aprendizado, reprová-lo agora poderia lhe causar sérios traumas e complexos. Uma reprovação causaria um bloqueio definitivo no aluno. Portanto, o cara com média 2,5 é aprovado com honras e pompas;
- Se apesar de todas essas facilidades, e de muitas outras mais, o aluno ainda conseguir ser reprovado (sim, alguns conseguem tal feito), os seus responsáveis podem entrar com um recurso judicial contra a reprovação na Diretoria de Ensino de sua região. Via de regra, o parecer da Diretoria de Ensino é favorável ao aluno. Jogando na merda todo um ano de trabalho sério de um grupo de professores, pondo em xeque a competência dos mestres e minando de vez as suas já tão anêmicas autoridades.

Leis e parâmetros para criar uma geração de vagabundos e de indolentes, uma geração de frouxos e incapazes, de semianalfabetos felizes com a própria ignorância. O meu estranhamento é com o fato de ainda existirem bons alunos. Dependesse unicamente das leis do ensino, seriam todos delinquentes. E tudo isso embasado e avalizado pela tal Pedagogia, a pseudociência mais nociva e perniciosa de que eu já tive conhecimento.
Agora, me respondam, adiantaria investir milhões e milhões num cenário desses, sem antes mudar esse mal-intencionado pano de fundo? Será que o nosso problema principal é mesmo o financeiro, o da falta de recursos materiais? Não e não. Nosso nó górdio e cego e surdo e mudo não é a falta de recursos fnanceiros, sim de recursos humanos, morais. É a falta de vergonha na cara. 
Não precisamos, somente, de mais dinheiro, precisamos de leis mais corretas, rígidas, fundamentadas em valores como a dedicação e o mérito, leis que enalteçam o bom e que eliminem o ruim das salas de aula.
Vamos, enfim, aos números : em Leitura, ocupamos a 59ª posição entre os 70 países avaliados; em Ciências, a 63ª; e em Matemática, a nossa especialidade, a 66ª.
Um resultado péssimo! Mas não, de forma alguma, surpreendente. Surpreso eu estaria se estivéssemos entre os melhores, ou ainda que entre os medianos.
Somos um país de merda. E de merdas. Definitivamente. 

Fonte : G1 - Educação

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar, a Sua Mais Completa Tradução.

Por esse sujeito, sim, o país deveria se quedar em luto. A carpir sua morte, nos inundar diuturnamente com Jornais Nacionais. Em respeito imortal, todos os lápis, canetas, máquinas de escrever, computadores e imaginações e vícios de poetas fazerem uma estrofe de silêncio.
Mas, afinal, quantos brasileiros já ouviram falar em Ferreira Gullar? Não. Ele não foi centroavante da seleção de 70. Nem artilheiro da Libertadores. Nem nunca foi técnico do Corinthians. Nunca jogou no "Barça". Então, para o brasileiro, não tem importância nenhuma. Tome um antiemético hoje e assista ao Fantástico. Duvido que escute sequer uma notinha sobre ele.
Ferreira Gullar foi poeta. Dos bons. Dos do caralho. E não morreu. Que poeta não morre. Só troca de editora. De planeta. Entra para a Mitologia. Que a ABL é para Paulos Coelhos e Josés Sarneys.
(1930 - 2016)

TRADUZIR-SE
(Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Só Mais Um Sábado Sem Rock'n'Roll

postagem em homenagem à minha amiga Priscilão
 
O Paulistânia Rock Bar foi um bar de rock e de blues que manteve suas atividades por cerca de duas décadas aqui em Ribeirão Preto. Frequentei-o, contumaz e assiduamente, entre 1998 e 2006, 2007, período que, julgo, ter compreendido o seu auge, que nada mais é, o auge, que o ponto máximo de uma trajetória balística, o vértice de uma parábola que se desenha entre o lançar da catapulta, que tira um lugar do anonimato, e o primeiro pisar das solas na areia movediça, que o tragará em retorno ao esquecimento.
O Paulistânia não era pra qualquer um. Recebia e agregava seletíssima clientela. Uma elite. Não financeira  - o Paulistânia sempre praticou preços bem mais módicos que outros estabelecimentos do gênero -, tampouco intelectual - rockeiros, via de regra, pouca coisa têm na cabeça, por isso, podem ficar a chacoalhá-las e a batê-las uns contra os outros à vontade, o risco de dano é mínimo.
Sim uma elite de desequilibrados, de portadores de algum tipo de transtorno, se não mental, no mínimo, social. Se o sujeito não fosse, de alguma forma, um desajustado, jamais seria atraído a cruzar os portais do Paulistânia, ou, se inadvertidamente o fizesse, o faria uma única vez.
A clientela habitual era tudo VIP. Não de Very Important Person. Sim de Very Insane Person.
As paredes do Paulistânia delimitavam um espaço exíguo, mal distribuído, de difícil locomoção quando mais de vinte ou trinta pessoas estivavam presentes (o que era considerado um público recorde), e com um perpétuo e perenal nevoeiro de nicotina que parecia emanar do chão e das paredes, uma Little London de fog azulado. Um local próprio para se esconder, e não se exibir, como é de costume e o objetivo de quem cai na noite às sextas e aos sábados.
A loucura, dificilmente, aportava sozinha no Paulistânia - eu mesmo, que sempre fui gato vira-lata de sair e me perder sozinho pelas ruas e pela madrugada, por raríssimas vezes fui sozinho ao Paulistânia. A loucura por lá chegava em ondas, em pequenos bandos, surgia em "panelinhas" das mais diversas vertentes, cada um com seus códigos, seus trajares, seus vocabulários e seus maneirismos, os metaleiros, os progressivos, os punk rockers, os rastafáris, os bluseiros, os raulseixistas, os cabeludos, os maconheiros etc.
Embora eu nunca tenha presenciado uma única briga entre os grupos - todos conviviam e se esbarravam pacificamente pelo Paulistânia -, também nunca testemunhei nenhum congraçamento entre eles. Eles não se misturavam. A loucura sempre foi segmentada e imiscível no Paulistânia.
Assim, por anos, cruzei e cumprimentei pessoas cujos nomes jamais soube, e nem elas o meu.
E havia um grupo muito especial que frequentava o Paulistânia à época, o qual é o motivo dessa postagem e de todo esse blá-blá-blá, e que abrilhantava e que perfumava e que salpicava com doçura e delicadeza as cruéis noites ali passadas. Um grupo feminino, praticamente as únicas mulheres com cujas presenças podíamos contar.
E essa era outra peculiaridade do Paulistânia : se você fosse até lá na intenção de pegar mulher, tava fudido. E eu falo com propriedade, afinal, quando um macho das antigas sai de casa, mesmo que ele diga que não, é atrás disso que ele vai, mesmo que o mar não esteja pra peixe, ele sai é para pescar. Mas ali, as redes sempre saíam vazias da água. Nem Cristo conseguiria operar o milagre da multiplicação da buças. Aquilo parecia um colégio interno católico. Um presídio.
Mas havia esse grupo de mulheres. Todas gordinhas, gordas, GGs. Rolhas de poço. Pudins de banha. Nós as chamávamos de As Pichorras, ou, mais formalmente, de A Confraria das Pichorras.
Aqui, um parêntese se faz necessário : o termo pichorra - e eu procurei pra caralho - não consta em nenhum dicionário oficial, formal ou informal da língua portuguesa com o sentido com que o aplicávamos. Foi um significado imputado e trazido, sabe-se lá de onde, acho que nem ela mesma sabe, pela minha amiga Priscilão (não, não é um traveco).
Segundo o Dicionário Revisado da Nova Ortografia Priscilão, pichorra é um sinônimo, de cunho pejorativo, para gorda, balofa, supositório de baleia.
Acontece que, se a oportunidade faz o ladrão, a escassez e a necessidade fazem o tesão. Por não haver delícias e beldades no Paulistânia, um padrão outro para comparação, as Pichorras acabaram por ser tornar as musas do Paulistânia, as últimas bolachas do pacote, os objetos de desejo dos punheteiros do lugar.
O tiro da Priscilão saiu pela culatra. Pichorra passou a designar não apenas uma gorda, mas sim a gorda sexy, a plus size, a gorda com sex appeal, com savoir-faire, com approach, com balacobaco, com o buraco quente. A gorda que, longe de causar repulsa e paumolescência, é capaz de causar ereções matinais, vespertinas e poluções noturnas.
O que, da parte da Priscilão, surgiu como um termo depreciativo, acabou por se tornar em uma honraria, uma comenda, uma condecoração.
Igualmente aos integrantes dos outros grupos, nunca soubemos os reais nomes das Pichorras. Havia uma, a líder delas, que lembrava um pouco a atriz Neve Campbell, que fez relativo sucesso e furor na década de 1990, estrelando séries e filmes voltados ao público adolescente. Logo, a pichorra passou a ser a Neve Campbell. Tempos depois, ela tingiu os cabelos de preto retinto e passou a cortá-los ao estilo da Cleópatra da Elisabeth Taylor : virou Cleópatra para nós. Outra delas, dados a compleição e os atributos físicos, foi batizada de Bola 7 pelo meu amigo Samuel, o famoso Nariz. Só que nunca sabíamos se a Bola 7 era mesmo a Bola 7, pois a mesma tinha umas 18 irmãs quase que idênticas, como que saídas de uma linha de produção fordista. E a coisa e as nomenclaturas extraoficiais iam por ai, por esse viés.
Então,  um salto de 10 anos no tempo e eu me pego acordado às sete da manhã de um sábado na sacada do apartamento - cabelos bem mais brancos, rugas mais profundas, mais barrigudo -, tomando um café forte, olhando a rua, esperando mulher e filho acordarem (as gatas já foram alimentadas e já roçam e se enrodilham em meus pés), me preparando psicologicamente para um fim de semana na casa da sogra.
Eis que de repente, não mais que de repente, um caminhão sobe e estaciona do outro lado da rua, poucos metros acima, em frente a uma empresa de manutenção de computadores e periféricos. Na lateral do enorme baú, o nome da transportadora, em foto tirada da sacada, meio que de lado, da porra de um tablet CCE que recebi do Governo.
TransPichorra! Pãããããta que o pariu!!!
Abriu-se o Túnel do Tempo! Foi ligado o tomógrafo da memória!
No mesmo instante, comecei a imaginar as pichorras saindo alegres e dançantes e requebrantes e sensuais e luxuriantes do caminhão, quando o motorista destrancasse as portas traseiras. A líder dela em suas duas versões a coexistir, a Neve Campbell de mãos dadas e colando velcro com a Cleópatra, a Bola 7 e suas 18 irmãs. Quem sabe até o Durval, o dono do Paulistânia e o último verdadeiro homem do rock em Ribeirão Preto, a servir, mal-humorado, a sempre morna cerveja. Liberei geral e imaginei mesmo ver o Grillo Vergueiro - o maior cover do Raul Seixas do Brasil, infelizmente aposentado por motivos infelizes - descendo do caminhão com sua guitarra e sua garrafa de conhaque em punho e a tocar e cantar DDI, Amigo Pedro, A Hora do Trem Passar, Medo da Chuva, Conserve seu Medo, SOS, Sessão das Dez e, ao encerramento da noite, na hora do bis e dos pedidos, declamar Movido a Álcool e se derreter a uma bem fornida fã e entoar Baby.
Imaginei um reencontro, uma festa e uma serenata sob minha sacada.
Qual o quê... O caminhão transportava somente uma carga de toner para impressoras.
Dei as costas para a rua e fui me reabastecer de café.
Seria só mais um sábado comum. Movido a café. Sem Baby.
Só mais um sábado sem rock'n'roll.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Estilhaços

Porque Memória
É só um outro nome
(um mais covarde)
Que damos aos escombros
E às demolições.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, que Fossa...(39)

Clarice Falcão, do alto de suas quase três décadas de vida, é atriz, roteirista, cantora, compositora e humorista integrante da Porta dos Fundos. E uma gracinha - valha-me Santa Hebe Camargo. Parece a mim que faz o gênero menina tímida, recatada, meiga, indefesa, quase que de porcelana. Mas o provável é que seja só fantasia de velho babão. Ela deve ser é geniosa pra cacete, como toda mulher inteligente que se preza. Mas deixa o velho sonhar...
E Clarice também entende de fossa, de levar "bolo", de ser preterida. O que mostra que tem muito canalha por aí, muito crápula, muito mané. Quem seria capaz de deixar Clarice à espera num bar?
A música, por sua temática universal, lembra muito a "Se meu amor não chegar", de um outro rei da fossa e do chifre, Reginaldo Rossi, mas tem mais delicadeza, mais doçura, e melhores rimas, também.

Se esse bar fechar
(Clarice Falcão)
Se esse bar fechar
Ele não vem
Se esse bar fechar mesmo se ele vier, não vai ter mais ninguém
Então se vocês me servirem mais uma
Por mim tudo bem

Se esse bar fechar
Eu fico só
Se esse bar fechar todos aqui vão me olhar com essa cara de dó
Então se vocês me servirem mais uma
Por mim é melhor

Eu sei que eu marquei às dez
E eu sei que já são três
Mas vai que ele se atrasou
E quando ele chega eu já fui e a culpa é de vocês

Se esse bar fechar
Mais um revés
Se esse bar fechar pra me tirar 'cês vão ter que arrastar pelos pés
Então se vocês me servirem mais uma
Eu pago mais dez

Se esse bar fechar
Eu posso ir
Se esse bar fechar faz tanto tempo que eu não consigo dormir
Mas se vocês não servirem mais uma eu quebro isso aqui

Eu sei que eu marquei às dez
E eu sei que já são seis
Mas vai que ele se atrasou
E quando ele chega eu já e a culpa é de vocês

Se esse bar fechar
Se esse bar fechar
  
Para ouvir a doce Clarice, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO  

domingo, 27 de novembro de 2016

Pé-de-Pau

Há coisas que não sei desde quando as sei, informações com as quais tive contato e as retive desde a mais tenra idade - fazer barquinhos e aviões de papel, ver a hora em relógio analógicos, os de ponteiros (uma arte quase esquecida), saber que o metro tem cem centímetros, ler algarismos romanos, amarrar o cadarço do sapato, entre outras.
Há coisas que não sei que não sei, e que nunca me fará falta ou diferença sabê-las - por exemplo : nem faço ideia.
Há coisas que sei que não sei, e que pouco me importa não sabê-las - nome de modelos de automóveis, a escalação da seleção brasileira de futebol, ou de qualquer outro time, o final do novela das oito, o que o horóscopo preconiza para o meu dia, o ganhador do Oscar, ou do Nobel, nomes dos alunos etc
E há, por fim, coisas que eu sei que não sei e que se tornam e permanecem como coceiras daquelas inalcançáveis até que eu as saiba; comichões de fogo, pequenas agonias, inícios de taquicardia, que só cessam ao desvelar do conhecimento - nessa categoria, no meu caso, se encaixa perfeitamente a nomenclatura de plantas e bichos.
Se vejo uma árvore, ou um arbusto, ou um pequeno mato a florir por entre a rachadura de uma parede, ou de uma sarjeta, ou um pássaro, ou um peixe, ou um inseto etc, dos quais não sei o nome, um incômodo se instala, imediatamente.
Saber o nome, por exemplo, do ipê-amarelo se torna mais importante e premente que contemplar seu esplendor dourado; do sabiá-laranjeira, mais aflitivo e urgente que apreciar seu canoro gorjeio. 
A exemplo mais real e recente, enquanto eu não soube ser lavadeira-mascarada o nome de uma espécie de ave muito corriqueira nas margens de um rio que atravessa a cidade e o qual eu atravesso rumo ao trabalho, com corpo branco e asas pretas, tamanho pouco menor que o de um bem-te-vi e, igualmente a esse, com uma faixa preta a pintar-lhe os olhos, não sosseguei, o exaspero perdurou por meses, parecia que a pequena ave caçoava de mim, decifra-me ou devoro-te. Hoje, descoberta sua identidade, passo por ela e consigo bem apreciar a geometria de suas formas e cores, seu voo, seu canto.
Surpreendi-me, por isso, quando, um dia desses, um amigo com quem volta e meia pego carona comentou, ao passarmos ao lado do muro de uma escola por sobre o qual uma frondosa árvore debruçava e debulhava seus cachos amarelos de flores, suas pepitas, o quanto estavam bonitas as acácias.
Acácias?, estranhei. Acácias-amarelas, completou ele, não conhece, não?
Claro que já vira a tal espécie, várias e várias vezes, a árvore era velha conhecida. O que me espantou foi eu não ter sabido o nome dela por tanto tempo sem que isso nunca tivesse me incomodado.
Como? A resposta, de pronto, veio lá do fundo, da infância : nunca me incomodou o fato de não lhe saber o nome, simplesmente porque eu sempre soube. Não a conhecia por acácia-amarela, mas por um outro nome, com o qual a batizamos há praticamente quatro décadas, eu e um punhado de amigos com quem estudei no ginasial em uma escola em que várias delas rodeavam o pátio.
A acácia-amarela tem frutos na forma de vagens cilíndricas, que chegam a vinte, trinta centímetros de comprimento; finda a florada, as vagens roliças ficam pendentes dos galhos, feito móbiles ao prazer do vento.  Portanto, não deu outra, nós a batizamos de pé-de-pau.
Nós - eu, o Márcio, o Wander, o Íris, o André e o Fernandinho Formiga Atômica - vivíamos sacaneando uns aos outros com os paus do pé-de-pau. Bastava que um bobeasse, que desse as costas inadvertidamente ao grupo, para que o outro, correndo, lhe passasse a vagem na bunda, ou que colocasse um pau do pé-de-pau no assento da cadeira. E, claro, rolávamos de rir. Coisa de moleque idiota, mesmo; tínhamos nove ou dez anos, então.
Por isso, nunca me incomodou ignorar que o nome era acácia-amarela; eu a conhecia por um nome, que é o bastante para apaziguar minha obsessão. E, para mim, ela continuará a ser o pé-de-pau; acácia-amarela será uma espécie de apelido.
Lembrei-me, então, do Régis, outro aluno da minha classe, que, embora não fizesse parte exatamente da turma que citei acima - ele era quietinho, comportado, mimadinho, meio que filhinho da mamãe -, ficava sempre por perto de nós. E como era distraído, o Régis. Nunca percebia quando chegávamos pelas suas costas e lhe tacávamos o pau do pé-de-pau no forévis. Nunca percebia, quando ia se sentar, que tínhamos colocados um bem taludo em sua cadeira. Apenas nos olhava com um ar superior, com cara de desdém, como se fosse muito mais maduro que nós.
Hoje, vejo que o Régis não era distraído porra nenhuma. Muito menos maduro. O Régis era viadinho, isso sim! Desde aquela época! Pãããããããta que o pariu!!!
Eis um belo espécime do pé-de-pau.

É a Podridão, Meu Velho (13)

Baixei
E ouvi 
Dias desses :
(1) o novo CD do Zeca Baleiro
(2) das Velhas Virgens
(3) do Paulo Ricardo
- do Chico, nem mais procuro saber.

(1) Pálido
(2) Esquálido
(3) Inválido.

Bom ver
(ou não)
Que não sou só eu 
Que não escrevo mais merda nenhuma que preste.

Bom ver
Que não é só meu espelho
Que me assusta
Que tem erosões
Que me atraiçoa
(farto de mim)
Que me diz
Que Branca de Neve é mais bela do que eu.

Bom ver
Que não foi só o meu retrato de Dorian Gray
Que craquelou
Que desbotou
Que não consegue mais esconder a farsa
A falsificação
(nem o mais chinfrim dos peritos reconhece minha autenticidade)
Que amarelou
(que amarelei) 
Que não sou Fausto sozinho
Que não consegue ser mais
Mumificação
Embalsamento
Creolina
Formol
Do meu desmoronamento,
Da minha implosão
Da minha decepção,
Da minha podridão, 
Meu velho.