segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Pena Gêmea

Não acredito nisso de "carne e unha, alma gêmea, bate coração, as metades da laranja..." Acho que nem o Fábio Jr. acredita em alma gêmea. Na verdade, parece que ele, espiritualista que diz ser, crê em almas tirgêmeas, quadrigêmeas etc, haja visto o tanto de vezes que já se casou.
Se não acredito, e realmente não acredito, em alma gêmea, o que dizer, então, de pena gêmea? Aí, é que é mais improvável ainda. À pena, não basta ser gêmea para ser gêmea. Pena gêmea, para ser mesmo gêmea, tem que ser concomitantemente gêmea em seus três aspectos, em suas três possíveis conotações, encarnações. Pena gêmea, para ser mesmo gêmea, tem que ser univitelínica em três fecundações, em três úteros, em três placentas. Pena gêmea, para ser mesmo gêmea, tem que ser gêmea elevada à terceira potência : óctuplas idênticas, portanto. Quer tentar calcular a probabilidade disso?
Primeiro, a pena gêmea, para ser gêmea de fato, tem que ser gêmea quando é pena-caneta, feita em instrumento de registro das ideias, em interface das sinapses com o papel, em Caronte a transportar o pensamento para o mundo dos vivos. Cada pena tem um ritmo, uma velocidade, uma frequência cardíaca, uma impressão digital, seus próprios e intransferíveis caprichos. Duas penas iguais? Não sei o porquê, mas algo me diz que até a sua caligrafia é parecida com a minha.
Segundo, a pena gêmea, para ser gêmea de fato, tem que também ser gêmea quando é pena-penar, sofrer, padecer, pesar tonelada tirana. O motivo do sofrimento é, basicamente, um só : a frustração, caudaloso Amazonas abastecido por seus diversos afluentes, a frustração amorosa, a financeira, a profissional, a social, a sexual, a religiosa  etc. Um único estímulo à dor, a frustração, igual para todos. O que muda é a maneira com que esse mesmo estímulo afeta cada um, o como cada um sente a mesma porrada dada pela vida e, acho que principalmente, como cada um reage à dor, como lida com ela, como a supera, ou não. A dor é uma só, o que muda é como cada um desmembra, disseca, desossa, destila a sua dor. Nós, modestamente, me parece, que somos do tipo dos que chegam a fingir que é dor a dor que realmente sentem.
Terceiro, e por fim, a pena gêmea, para ser gêmea de fato, tem que igualmente ser gêmea quando é pena-pluma, a leveza, a paina, o dente-de-leão, necessária para que não ruamos, não implodamos (só de vez em quando) sob o peso das duas penas anteriores. E aí, cada um também tem a sua maneira de se alar, de tecer seu tapete mágico, de se encasular em sua bolha de sabão. A nossa, corrija-me se tiver coragem, é a ironia, a autoironia, inclusive e principalmente, é o desdém, é o não fazer muito caso do que o mundo pensa de nós, é até não levar muito a sério nem as nossas pena-caneta e penas-penar.
E então? És minha óctupla idêntica?

domingo, 26 de fevereiro de 2017

As Proibidonas do Azarão (3)

É tão grande a ira fascista e burra dos integrantes dos tais movimentos sociais que eles acabam abrindo fogo, inclusive, contra os seus, contra "minorias" cujos interesses dizem representar.
Querem proibir até a alegria do índio do Bananal, que está de olho no apito da mulher branca. Aliás, há uma curiosa história que teria dado inspiração para Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira comporem a marchinha, e que, se não for verdadeira, no mínimo, é muito espirituosa.
Segundo o cantor baiano Walter Levita, numa visita a uma comunidade indígena, a esposa do então Presidente Juscelino Kubitschek, Sarah, havia levado muitas bugigangas para agradar os índios.
Na hora em que ela tentava colocar um colar no pescoço do chefe índio (que era bem mais alto do que ela), a primeira-dama soltou um leve “pum”.  Aí o chefe, inocentemente, ou sacanamente, teria dito a famosa frase que passaria a circular no anedotário do carioca : índio não quer colar, índio quer apito!
Querem banir a marchinha Índio Quer Apito. Bons tempos em que o índio só queria apito! Hoje, ele quer também computador, internet, smartphone, camionete 4x4. Só não quer carteira de trabalho assinada.
Índio Quer Apito
(Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira)
Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!
Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!

Lá no bananal mulher de branco
Levou pra pra índio colar esquisito
Índio viu presente mais bonito
Eu não quer colar! Índio quer apito!

Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!
Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Nos Tempos de Pelé (Ou : o Verde é a Cor da Viadagem)

Quem lê o Marreta, sabe : odeio futebol. Ainda assim, dói-me vê-lo em processo de embichamento. Ainda assim, entristece-me ver o outrora truculento e viril esporte bretão ser solapado, enfraquecido e desfigurado pela viadagem reinante que campeia solta, ver um coliseu de gladiadores transformado em uma gaiola das loucas.
Sim, gostando ou não de futebol, admito que ele era uma das últimas fortalezas do macho das antigas, dos varões que faziam jus e méritos a esse nome. Afinal, originalmente, os esportes surgiram como substitutos civilizados das antigas guerras entre tribos e clãs, uma maneira sem baixas de subjugar e humilhar o inimigo. O próprio nome football, em sua origem, não especificava, ou restringia, que bola os pés deveriam chutar, podendo ser, inclusive e preferencialmente, as do saco do adversário.
Um jogo entre Palmeiras e Corinthians, ou entre Atlético e Cruzeiro, ou entre Inter e Grêmio, nada mais são que guerras travadas entre duas tribos do paleolítico, entre dois clãs de highlanders, cada um a defender o seu totem. Ou, pelo menos, eram. Nos tempos de Pelé. 
Nos tempos de Pelé, não havia viadagem dentro de campo, e onde o goleiro pisava, a grama não nascia jamais. Podia até ter viado no vestiário, mas viadagem durante o jogo, não.
Nos tempos de Pelé, o cara mandava um arroz com feijão e toucinho e uma costela com mandioca pro bucho e ia jogar cheio de energia e "sustança", ou uma buchada de bode, um sarapatel com jerimum e entrava em campo e marcava dez gols. Hoje, o jogador tem nutricionista, nutrólogo e dieta balanceada.
Nos tempos de Pelé, o cara tomava bico na canela, joelhada na coxa, arrebentava o menisco, distendia tendão e musculatura; aí, ia pra casa, fazia uma compressa de gelo, passava um unguento - o famoso gelol - e tava pronto pra outra; no máximo, quando o caso era mais grave, ia até uma benzedeira, que lhe fazia uma reza braba com arruda e guiné. Hoje, o jogador tem ortopedista, fisioterapeuta, quiroprático, massoterapeuta e acupunturista.
Nos tempos de Pelé, o cara jogava com chuteira de couro cru - dura pra caralho - com pregos na sola, com uma bola de capotão que, caso chovesse, encharcava e passava a pesar uns quinze quilos, com shorts e camisas, idem. Hoje, a bola, as chuteiras e os uniformes são feitos de polímeros levíssimos, impermeáveis, indeformáveis e antitranspirantes - tecnologia espacial, da Nasa.
Nos tempos de Pelé, se o cara errava o pênalti, se fazia um gol contra, ou perdia aquele debaixo do travessão, se entregava a final do campeonato, era vaiado, xingado, achincalhado, reduzido a pó de merda pela torcida e pela imprensa esportiva; sem mais, o cara baixava a cabeça, botava o rabinho no meio das pernas e ia pra casa, remoer e digerir sua vergonha, ia pro boteco, tomava uns gorós pra afogar as mágoas, levantava, sacudia a poeira, dava a volta por cima e, no jogo seguinte, dava de goleada no adversário. Hoje, o jogador tem psicólogo, para ajudá-lo a lidar com a pressão e a rejeição da torcida.
Nos tempos de Pelé, não havia, inclusive, nem a perobagem de cartão amarelo e cartão vermelho. O juiz repreendia verbalmente o jogador, dava uma bronca no marmanjo, mas ficava por isso mesmo, não virava nada, não tinha expulsão nem suspensão por tantos jogos posteriores. A porradaria e o quem-pode-mais-chora-menos, corriam soltos e eram a regra central do futebol, como deve mesmo ser a uma contenda de machos.
Mas como um juiz tcheco, por exemplo, poderia dar um esporro num jogador espanhol e ser entendido? Com o aumento dos campeonatos internacionais, isso passou a ser considerado um problema. Foi, então, que começou a viadagem no futebol.
Foi, então, que, em 1970, o juiz inglês Ken Aston, buscando solucionar essa torre de Babel que se interpunha entre árbitros e jogadores em disputas internacionais, nas quais um árbitro português tinha que se fazer entender num jogo entre Suécia e Cazaquistão, teve a ideia de criar um meio visual de advertências, que, tornado em padrão internacional, todos passariam a entender, independente de suas línguas maternas.
Inspirado pelas cores dos semáforos de trânsito, Ken Aston propôs à Fifa que a cor amarela fosse mostrada ao jogador como uma primeira advertência em caso de uma falta grave, e, no caso de reincidência durante a mesma partida, a cor vermelha, que o expulsaria de campo. A ideia de usar cartões para isso foi da esposa de Ken Aston, Barbie Aston. A Fifa aprovou e os cartões amarelo e vermelho foram instituídos já na Copa do Mundo daquele ano, 1970.
Aí, começou o embichamento! A partir daí, se o gladiador da bola, se o guerreiro de chuteiras fosse muito eficiente e contundente no combate ao inimigo, ele não seria mais condecorado, não teria mais o melhor lugar à mesa do banquete, não teria mais à sua disposição as mulheres mais gostosas da tribo : ele seria expulso, humilhado, eliminado da batalha. Os jogadores passaram a ficar mais contidos, mais educados, afrescalharam-se.
Agora, quarenta e sete anos depois, ainda não saciada, a viadagem faz mais uma incursão no já afeminado futebol - hoje, tem escolinha de futebol, tem jogador evangélico a dar com pau, o craque já não coça mais o saco nem cospe em campo.
Agora, quarenta e sete anos depois do surgimento dos cartões amarelo e vermelho, a CBF (Confederação Brasileira dos Frescos) anuncia uma novidade para 2017 : nas partidas da Copa Verde, competição disputada por equipes do Norte do Brasil, haverá o cartão verde, além do amarelo e do vermelho.
Muito dizem mal e injustamente da cor rosa, mas é o verde, desde que foi adotado por ecologistas, ambientalistas e outros queima-roscas como a cor de suas bandeiras, que é a verdadeira cor da viadagem. Se o sujeito se declara como verde, ou em defesa do, não há dúvidas, ele entuba. PV é o partido verde, ou da viadagem. E é o verde da viadagem que, agora, na forma de um aparentemente inofensivo cartão, vai acabar de embichar o futebol.
O cartão verde, ao contrário dos amarelo e vermelho, será mostrado ao jogador não quando ele der uma entrada mais dura no adversário, não quando ele se portar como um macho de respeito, mas sim quando ele se comportar feito uma gazela purpurinada, quando o jogador tiver uma atitude em prol do fair play.
Como nem fazia ideia de que viadagem fosse essa de fair play, fui pesquisar e descobri que fair play significa "jogo limpo". Sempre que o Bambi se comportar bem, o juiz lhe mostrará o cartão verde, como forma de reforço positivo à sua boa conduta, de homenagem e reconhecimento ao seu bom comportamento. Feito o médico que, ao fim da consulta, premia com um pirulito o capeta que não lhe mordeu o dedo nem lhe chutou a canela. O cartão verde, inclusive, passará a constar das súmulas dos jogos.
Serão consideradas atitudes de fair play dignas do cartão verde as abaixo :

1 – ter feito a falta em favor dos adversários;  
2 – parar na jogada, pois tocou a mão na bola, sem que o árbitro tenha percebido;  
3 – assumir que a penalidade foi marcada de forma correta contra sua equipe;  
4 – dizer que a falta marcada a favor de sua equipe não ocorreu;
5 – dizer ter sido tiro de canto para o adversário e não tiro de meta;
6 – dizer ter sido arremesso de lateral para o adversário e não para sua equipe;  
7 – que um cartão aplicado a um companheiro foi incorreto e deveria ter aplicado;  
8 – parar um ataque de sua equipe ao perceber que o adversário está caído por uma lesão;  
9 – um integrante da comissão técnica agiu de forma proativa ao evitar reclamações;  
10 – evitou que um companheiro reclamasse da decisão de um dos árbitros da partida;  
11 – árbitro percebeu que o treinador orienta o jogador para jogar na bola e não fazer falta;  
12 – outras ações de “fair play”

Que outras ações de fair play seriam essas, por exemplos? Que outras demonstrações de viadagem?
Sugiro mais três, que me ocorrem assim de pronto. O cartão verde será dado quando : 

- o jogador, ao invés de xingar a mãe do juiz, se colocar à disposição para levar a velha às compras, ao médico, à hidroginástica e acompanhá-la na excursão para Caldas Novas;
- o jogador, depois de fazer falta grave no adversário, der um beijinho na região machucada, olhar bem dentro dos olhos do outro e perguntar : sarou?;
- o jogador, solícito e prestativo, se abaixar para pegar o sabonete que o outro deixou cair durante o banho.

Pãããããta que o pariu!!!!
Só queria saber o que pensam Serginho Chulapa e Edmundo Animal sobre o cartão verde.

As Proibidonas do Azarão (2)

Maria Sapatão, aquela que de dia é Maria e de noite é João, é mais uma das marchinhas carnavalescas na mira fascista, iracunda e hidrofóbica dos bandos de encostados autodenominados movimentos sociais. Composição do genial João Roberto Kelly, o mesmo de a Cabeleira do Zezé, e imortalizada na voz do não menos genial Chacrinha, garoto levado da breca que está com tudo e não está prosa.
Maria Sapatão
(João Roberto Kelly)
Maria Sapatão
Sapatão, Sapatão
De dia é Maria
De noite é João

Maria Sapatão
Sapatão, Sapatão
De dia é Maria
De noite é João

O sapatão está na moda
O mundo aplaudiu
É um barato, é um sucesso
Dentro e fora do Brasil

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Quem é Você?

"Quem é você? 
Adivinha, se gosta de mim..."

As Proibidonas do Azarão

Em mais uma atitude de patifaria explícita e desavergonhada, blocos carnavalescos ligados aos tais movimentos sociais (essas máfias de vagabundos), aos tais grupos de defesa das "minorias" (tadinhos deles, sempre vítimas indefesas), tentam, agora, estender suas ramificações, seus tentáculos sujos sobre uma das últimas reserva de alegria do brasileiro, querem podar do povão, como diz o Chico, o direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chamava carnaval, o carnaval, o carnaval.
Fascistas que se dizem democratas, querem censurar e banir as tradicionais marchinhas carnavalescas, um estilo musical de um dos períodos mais áureos de nossa música, a era do rádio, estilo não só dos mais emblemáticos de nosso cancioneiro como também dos mais profícuos - existem mais marchinhas gravadas que toda a produção somada da bossa nova, tropicália e jovem guarda.
Blocos carnavalescos formados por feministas-fascistas-de-extrema-esquerda-crias-do-PT-de-sovacos-cabeludos-tetas-muxibentas-e-grelos-de-15 cm querem proibir marchinhas que consideram ofensivas às "minorias".
Povo sem talento nenhum, o esquerdista, vagabundo que só, incapaz de produzir qualquer coisa que preste, até porque produzir algo, geralmente, envolve trabalho, e trabalhar é pecado mortal para esses grupos, inventou uma maneira de aparecer, de ficar em evidência : destruir a obra de quem tem teve a capacidade de produzi-la.
Mas, aqui no Marreta, suvacuda rançosa, recalcada e invejosa não tem vez nem voz, aqui não tem proibição de porra nenhuma, aqui, quanto mais politicamente incorreto, melhor, aqui, quanto mais "ofender a sensibilidade" desses canalhas vermelhos, que querem instaurar a ditadura do pensamento (ou, nesse caso, da falta do), melhor.
Pra começar a fugaz seção As Proibidonas do Azarão, ela, a marchinha das marchinhas, A Cabeleira do Zezé, do grande compositor de marchinhas João Roberto Kelly.
Cabeleira do Zezé
(João Roberto Kelly)
Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é?
Será que ele é?

Olha a cabeleira do zezé
Será que ele é?
Será que ele é?

Será que ele é bossa nova
Será que ele é maomé
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!


E os foliões deram uma de co-compositores nessa muito alegre (ui!!!) marchinha. Depois da pergunta que não quer calar, será que ele é, será que ele é, o salão todo grita em uníssono : bicha!!!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mimetismos (26)

A pareidolia é um evento em que uma coisa aleatória e vaga acaba sendo percebida pelo indivíduo como algo distinto e com significado, ou seja, um fenômeno no qual pessoas reconhecem imagens que lhes são familiares em locais onde elas, simplesmente, não existem. A culpa é do cérebro, que é programado para procurar e reconhecer padrões que ou sejam prazerosos, ou favoreçam a sobrevivência, ou ponham a existência em risco.
São ocorrências de pareidolia, a exemplos, ver o cachorrinho de estimação da infância numa nuvem, ou o perfil da avó que nos fazia bolinhos de chuva; distinguir a face de Cristo, ou a imagem da Virgem Maria, num nó da madeira, na fumaça de um incêndio, numa mancha de mofo na parede; visualizar a silhueta do capeta, um fantasma, um monstro, uma assombração na sombra projetada por uma cortina esvoaçante, por um galho de uma árvore, por um gatinho que salta de um telhado a outro numa noite de lua cheia.
A grosso modo, pelas minhas observações, ora sóbrias, ora ébrias, mas, de qualquer forma, nunca confiáveis, são três as classes mais recorrentes de pareidolia. A que evoca recordações que nos são caras e preciosas, sobretudo as lembranças da infância - o bichinho de estimação, a vovó, os peitões da babá (eu já vi belos pares de peitos em nuvens); a de natureza místico-religiosa - a da cara do Cristo e/ou do manto sagrado da Virgem -, que parece ser a mais frequente e que podemos considerar uma dupla pareidolia, uma ilusão visual que dá ao seu observador a ilusão de que ele é uma espécie de ser abençoado, iluminado, afinal, muitos antes dele passaram por aquela vidraça trincada e não viram o claro rosto do Nazareno, ele se sente como se o próprio Cristo o tivesse escolhido para revelar-se na forma de uma mancha de óleo, de um nuggets mordido, nas pintas de uma banana nanica ou no cu de um cachorro; e, por fim, a que traduz nossos medos inconscientes e nossas paranoias - fantasmas, monstros e assombrações?
Não! Donald Trump!
Depois da eleição de Donald Trump a presidente dos EUA, os casos de pareidolia envolvendo o topete mais poderoso do planeta dispararam. Trump está prestes a desbancar o Cristo e a Virgem Maria, campeões absolutos na modalidade delírio coletivo.
A obsessão e o cagaço pela figura de Trump estão fazendo com que o chefe da Casa Branca esteja sendo visto nas situações mais inusitadas, ao redor de todo o planeta.
Donald Trump já foi visto na cara de um peixe, o blobfish, o peixe-bolha australiano,
Na cara de um outro peixe, o Cowfish, o peixe-vaca do Atlântico,
Nas cerdas venenosas da lagarta peluda peruana,
Na loura cabeleira de um nobre habitante do corn belt americano,
E, a minha preferida, no majestade faisão-dourado da Ásia.
Mimetismo pouco é bobagem!!! Donald Trump é de deixar qualquer camaleão roxo de inveja - roxo, vermelho, verde, amarelo, branco, bege, quadriculado...
Até agora, a única pareidolia que não ocorreu envolvendo Donald Trump foi ele ter sido visto e reconhecido na figura de um Presidente dos EUA.
Pããããããta que o pariu!!!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Para Não Dizer Que Não Falei das Tetas

Tenho grande simpatia pelo considerado antipático e arrogante povo argentino. Digo "considerado" porque não concordo com tal pecha. Considerado antipático e arrogante por quem?, é necessário antes saber, antes de bater tal carimbo.
Pelo brasileiro, é claro. Povinho subaculturado, que tem na inveja e na maledicência suas únicas defesas contra o que lhe é inequivocamente superior, uma vez que estudar e trabalhar duro para se equiparar ao seu objeto de inveja não está nem nunca esteve em seus planos, mais fácil caluniá-lo. Tão fácil quanto ineficiente.
O argentino não é antipático nem arrogante : ele simplesmente não faz questão - aliás, nenhuma - de esconder sua superioridade, ele tão-somente não se faz de falso modesto, não dá uma de humilde, de demagogo, que é do que o brasileiro gosta, que alguém melhor que ele diga que todos são iguais, que pague uma cachaça pra ele e diga que todos são filhos de Deus.
A exemplos irrefutáveis do que falo : a Argentina já foi laureada com 5 prêmios Nobel - dois da Paz, dois de Medicina (simplesmente a técnica do marca-passo) e um de Química. O ônibus, a caneta esferográfica, o sistema de impressão digital são inventos argentinos. A Argentina já ganhou dois Oscars. Segundo o site Portal Aprendiz, há mais livrarias na cidade de Buenos Aires que no Brasil inteiro (note-se que a capital portenha conta com 4 milhões de habitantes; o Brasil, com 200 milhões), há uma enorme indústria de pirataria de livros na Argentina, lá eles pirateiam livros, meus caros, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez etc; no Brasil, pirateia-se sertanejo universitário.
Sempre na contramão do brasileiro, eu, como já disse, simpatizo por demais com o povo argentino. Tanto que até pelas hermanas suvacudas e muxibentas, pelas feministas argentinas, eu guardo as mais favoráveis impressões.
As feministas argentinas não ficam, por exemplo, querendo proibir propaganda de cerveja, ou de lingerie, protagonizada por gostosas, valendo-se daquela velha e batida lenga-lenga de que a publicidade objetifica o corpo da mulher - a publicidade, ora porra, objetifica a tudo e a todos, mulher, homem, criança, cachorro -, ou dizendo que elas, suvacudas e muxibentas, não se reconhecem na gostosa da propaganda, que aquela deliciosa suculenta não as representa - ora porra, é claro que não se reconhecem na biquinuda, tetuda e rabuda da cerveja, é óbvio.
E nem poderiam : feminista, seja ela brasileira, argentina, russa, chinesa, francesa, tibetana ou marciana, é tudo um bando de barangas de dar pena, que jamais seriam chamadas sequer para fazer propaganda da cachaça Pitu; dai a inveja, daí o ranço. Só estando em um estado de total delírio e alucinação é que uma feminista poderia se reconhecer numa modelo de comercial de cerveja.
O anacrônico e patético movimento feminista diz representar todas as mulheres, mas isso não é verdade. A feminista olha apenas para o seu próprio umbigo - isso quando a teta caída não o está tampando; se a ela algo não serve ou não diz respeito, ela diz que aquilo ofende e deprecia todo o mulherio. Duvido que a Juliana Paes, a ex-BOA da cerveja Antarctica não se reconheça na Aline Riscado, a atual Verão da cerveja Itaipava e vice-versa.
Mas as argentinas não estão nem aí para isso, não ficam de mi-mi-mi, não perdem seu tempo com superficialidades. Las hermanas greludas não fazem rodeios nem ficam de prolegômenos, vão direto ao assunto, querem somente o que lhes é básico e inalienável : querem mostrar e bronzear as tetas - las tetitas e los tetones - livremente pelas praias argentinas, sem censura ou repressão.
Querem direito mais nobre, intrínseco e inextirpável que mostrar as tetas?
Os movimentos em prol do topless são a nova moda do verão argentino. Os tetazos, como ficaram conhecidos, começaram nas cidades litorâneas, foram ganhando volume e adeptas por outras regiões do platino país e desembocaram numa grande passeata de tetas em frente ao famoso Obelisco, principal monumento do país, localizado no centro de Buenos Aires.
Pois é, meu amigo, lá na Argentina não tem essas porras de panelaço, de beijaço, de abraçaço e o escambau. Lá tem é tetaço!!! Tetaço, meu amigo! Dá pra não simpatizar com um povo desse, portador de tanta consciência cívica e patriótica?
Os tetazos tiveram início como um protesto contra a polícia do balneário de Necochea, que, no início desse mês, exigiu que três mulheres cobrissem seus corpos porque sua exibição se tratava de uma contravenção e que alguns frequentadores da praia se diziam “assediados” pelo gesto das moças.
Mas, hoje, ninguém mais se lembra, ou quer saber, como se originaram os tetazos; hoje, todas querem é mostrar as tetas. Na praia, no campo, na cidade, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé.
Abaixo, algumas imagens do tetazo em Buenos Aires, ocorrido no dia 7 desse mês.
Na primeira, um dos cartazes diz : Tetas, nosotras decidimos. E ainda a sigla MST. Movimento das sem-teta? Ao fundo, o emblemático e fálico Obelisco, em riste e ereto. Por causa do tetazo, ou apesar dele? Eis a questão.
Nas duas seguintes, a barangada em festa, pois, finalmente, tem alguém olhando para as suas tetas.

Claro que não podia faltar a plateia masculina para prestigiar o flácido evento, todo mundo filmando e tirando fotos. Todos usando o pau de selfie, é claro.
E, como não podia deixar de ser, sempre tem alguma bichinha infiltrada e camuflada no meio, tentando abiscoitar uma rola.
 Pãããããããta que o pariu!!!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A Volta do Rum Pródigo

A boca chegou a estranhar
(pega de surpresa, uma água-viva a lhe queimar);
O nariz, a repelir
(desavisado, um flato de fogo-fátuo a lhe causticar);
O fígado, a soar seus clarins
Tocar suas sirenes
Acordar e perfilar em ordem unida o seu exército de mortos-vivos
Para combater o fogo amigo.

Mas o sangue reconheceu
E se aqueceu :
Atravesseirou-se;
O cérebro,
Esse túnel do tempo,
Oitentou-se;
E a alma,
Ah, a alma,
Puta que o pariu, a alma!
A alma
Arreganhou-lhe as pernas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Estamos Todos Sem Máscaras

Não quero voltar à realidade,
Aos sorrisos sem graças,
Às meias-verdades.
Melhor seria ficar aqui,
Onde a noite não termina,
O sono não nos vence
E os beijos são molhados e densos como a neblina.
Estamos todos sem máscaras
E, apesar disso, gostamos do que vemos
Ainda assim, o espelho não nos assusta.
E de repente
Me descubro
Feito da mesma matéria podre que todos os outros
E, sem remorso, deixo minha podridão extravasar.
Seria eu menos podre
Se a mantivesse trancada aqui dentro?

Só sei que não quero voltar pra casa
Não quero mais o meu quarto
Não quero mais guardar minhas asas
Melhor ficar aqui,
Onde o dia foi feito pra ser jogado fora,
A luz do sol não retalha nossa cara
E os desejos são afiadas lâminas
Que cortam também quem as empunham.
Estamos todos sem máscaras
E, apesar disso, não sentimos vergonha
Ainda assim, estamos abraçados.
E de repente
Me descubro
Feito da mesma matéria suja que todos os outros
E, sem escrúpulos, deixo minha sujeira aflorar.
Seria eu menos sujo
Se a mantivesse fermentando aqui dentro?

Só sei que não quero mais passar as noites
Cochilando em frente à TV na sala
Não quero mais arrumar minhas malas
Não quero mais recolher minhas garras.
Melhor ficar aqui
Explorando terrenos cutâneos desconhecidos
Onde as dores e os rancores são amortecidos
E valem cada gota da bile vomitada.
Estamos todos sem máscaras
E, apesar disso, deixamos as luzes acesas
Ainda assim, não há constrangimento.
E de repente
Me descubro
Feito da mesma matéria imunda que todos os outros
E, sem culpa, deixo minha imundície transbordar.
Seria eu menos imundo
Se a deixasse aqui dentro criando vermes?

Só sei que estamos chegando de volta
Tiremos, então, nossas máscaras do bolso
E as recoloquemos.